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Entrevistas

Andréa Tikhomiroff
E-mail: andrea.tikhomiroff@globo.com
Publicado:  20/11/2007
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Desta vez o AtivoAccess apresenta a entrevista de Andréa Tikhomiroff. De uma didática a toda prova, Andréa tem sido uma das grandes colaboradoras do AtivoAccess. Andréa nos conta um pouco da sua vida profissional e do seu trabalho social.
 
Andréa Tikhomiroff

A: Vamos começar pedindo à nossa entrevistada para que se apresente incluindo nessa apresentação sua cidade e estado, breve histórico da formação profissional e principais atividades que executa.

AT: Bom, acho que muitos me conhecem, apesar de eu andar meio sumida... Meu nome é Andréa Tikhomiroff, moro em Serra Negra, interior de São Paulo. Sou autodidata em informática, há cerca de 10 anos comecei a trabalhar com Access, lendo livros, revistas, depois (quando comecei a acessar Internet) buscando em sites, fóruns, etc. Cheguei a fazer um curso na Ka-Solution para formação MCDBA, mas não prestei o exame porque mais ou menos na mesma época em que estava terminando o curso comecei a me envolver mais com a área de inclusão social da pessoa com deficiência, que é o meu foco principal hoje.


AA: Fale um pouco sobre os aplicativos de sua autoria e aquele que você considera o carro chefe de seus desenvolvimentos. O que você usa como ferramenta para desenvolvimento?

AT: Desenvolvi alguns sistemas para empresas, e vários sistemas de exemplo, para auxiliar quem estava começando na área. Mas o meu “carro-chefe” é o sistema que desenvolvi para a empresa na qual trabalho há quase nove anos. É uma empresa que compra, beneficia e vende o café aqui da região para a Sara Lee, uma empresa multinacional com sede na Suíça. Quando entrei na empresa não havia praticamente nada informatizado. Alguns relatórios eram feitos no Excel, mas este era usado como “lista”, pois não havia sequer ligações entre planilhas, forçando a redigitação dos dados a cada relatório que fosse necessário. Então, aos poucos fui criando um sistema para cadastro dos produtores, motoristas, corretores, contratos (eram feitos manualmente), até conseguir chegar a um sistema imenso (afinal, foi feito sem nenhuma modelagem correta), mas que controlava todos os setores da empresa. Com esse primeiro sistema funcionando, fui trabalhando, em paralelo, numa nova versão do sistema, para que ficasse mais automatizado, mais “enxuto”.


AA: Qual o livro que você leu e o curso que você fez que foram fundamentais na sua formação de Desenvolvedora?

AT: Não fiz curso, como disse. O primeiro livro de Access que li, e que creio foi um dos melhores lançados na época, foi o “Microsoft Access 2000 VBA Fundamentos”.


AA: Vamos falar um pouco sobre o MS-Access: afinal o Access é ou não é uma boa ferramenta para desenvolvimento de sistemas? Quais as suas virtudes e pecados?

AT: Eu o considero excelente. É uma ferramenta bastante acessível, tanto para o iniciante quanto ao usuário avançado. Você pode construir um aplicativo sem escrever uma única linha de código! Claro, se falarmos em termos de sistemas profissionais realmente, isso se torna impossível, porque o VBA lhe dá uma flexibilidade absurda, para você conseguir que o Access execute exatamente o que você deseja. A limitação dele, ao que eu sei (mas até aqui não tive problemas) é com um volume muito grande de dados, ou com uma rede muito grande. Mas isso é o que ouvi dizer, porque não vivenciei isso por enquanto.


AA: Uma aplicação desenvolvida em Access deve ser migrada para outras linguagens tipo VB, Delphi, etc? Até que ponto deve-se manter a aplicação na sua linguagem original, isto é, em Access?

AT: Como disse anteriormente, se é verdade que o Access possui essa limitação com volumes muito grandes de informação, talvez seja interessante migrar o sistema quando este limite estiver prestes a ser atingido.


AA: O que é necessário para uma pessoa se tornar um desenvolvedor de sistemas competente?

AT: Estudar, estudar, estudar, pesquisar, perguntar, sempre! E nunca achar que sabe tudo. Sempre há algo a ser aprendido.


AA: Você disse que atualmente seu foco principal é a inclusão social da pessoa com deficiência. Você deixou de trabalhar com desenvolvimento de sistemas?

AT: Não parei, mas estou afastada do meio. Continuo trabalhando na mesma empresa, portanto mexo com sistema o dia inteiro, mas eu havia chegado num ponto em que não fazia outra coisa, havia me transformado numa workaholic mesmo. De noite, final de semana, eu estava sempre trabalhando e trabalhando muito! Aos poucos eu diminuí o ritmo, passei a me dar mais tempo, a olhar para outras coisas, a me reaproximar de outros interesses. Hoje, se aparece um sistema para desenvolver, lógico que faço. São raras as pessoas que podem dizer que recusam serviço porque não estão a fim e não precisam do dinheiro. Ainda não cheguei nesse ponto.

AA: E nesse processo aconteceu a mudança de foco? De que forma isso ocorreu?

AT: Vários anos atrás, eu havia participado junto a um grupo espiritualista, de um trabalho com crianças com síndrome de Down, e isso me marcou para sempre. Jamais consegui me afastar deles, vira e mexe eu estava envolvida com algo, mas ainda muito contido. Era muito estranho, porque o assunto caía em minhas mãos de forma contínua. Abria uma revista, um site, ligava a tv, e dava de cara com alguma matéria. Saía e encontrava alguma pessoa com Down na cidade... E olha que Serra Negra nem tem tantos assim! Eu sentia no meu íntimo que deveria fazer algo, mas não sabia o quê nem como.

Aí um dia, em 2005, uma amiga começou a insistir para eu entrar no Orkut. Eu relutei muito a entrar, ficava muito desconfiada, com a mega-exposição a que se é submetido. Mas ela insistiu tanto que resolvi experimentar, e entrei no Orkut e no Gazzag. Comecei a pesquisar, encontrar amigos, colegas de colégio, e aí quando vi já estava mordida pelo bichinho! Aos poucos, fui entrando em algumas comunidades sobre síndrome de Down, de xereta mesmo, já que não tenho ninguém com Down na família. E o mais difícil era me apresentar... afinal não sou mãe, tia, irmã, nem fono, TO, médica, professora... o que estava fazendo ali? Fazer as pessoas entenderem que era por puro amor foi complicado no começo. Mas um dia, uma moça que tem comunidade no Gazzag, me convidou a participar de um grupo do Yahoo, o Happy Down.

Lógico que várias pessoas me receberam com desconfiança, da mesma maneira que acontecia nas comunidades. Mas também fui recebida por outras tantas de braços abertos, e comecei a me integrar, e até entrei em outro grupo, o Síndrome de Down. Alguns meses depois fui a São Paulo para participar de um encontro do Happy, um chá de bebê, onde conheci vários participantes (e seus filhotes lindos) ao vivo. Depois disso não tinha mais volta! Estava mordida em definitivo!

Um dia levei um susto: uma mãe do grupo deixou um recado no meu Orkut... "seguinte: estou cansada desse papo que você não tem parente com Down, que é xereta, então a partir de agora você vai ser madrinha virtual do Ducho"! O Ducho é o filho dela, Gabriel, que na época tinha 1 ano e meio. Acabamos nos conhecendo pessoalmente algumas semanas depois, e a amizade dura até hoje! Só que não sou DindaNet só do Gabriel... Depois dele outros surgiram!


AA: Mas então a sua atuação é à distância?

AT: No começo foi sim. Eu tentava ajudar em alguns tópicos postados, levando uma palavra amiga quando havia alguma criança doente, ou passando experiência amiga quando havia alguma criança doente, ou passando experiências vivenciadas com minhas sobrinhas (que não têm Down, mas são crianças), ou simplesmente dando minha opinião, já que sou palpiteira mesmo! Só que eu comecei a me inteirar, a me interessar mais pelo tema "inclusão". Comecei a ver quanta coisa tem que ser feita ainda, para que as pessoas com deficiência (qualquer deficiência) tenham direito a uma vida digna. Não é só dar isenção na passagem de ônibus. É dar condições de estudo e trabalho, para que essas pessoas possam pagar suas próprias passagens. Não é só fazer uma rampa para um cadeirante poder entrar no restaurante. É ter um cardápio em braille para o deficiente visual também poder escolher seu prato. É tanta coisa, tanta coisa, que se formos olhar, o nosso mundinho está todo errado!

Então, em março de 2006, quis aproveitar a comemoração do 1º Dia Internacional da Síndrome de Down (21/03, em alusão à trissomia do cromossomo 21), para fazer algo aqui na cidade. Não deu, estava muito em cima da hora, mas deu para organizar uma reunião visando organizar um evento sobre inclusão para o segundo semestre. No início, o foco principal era a síndrome de Down, porque era o grupo em que tinha maior conhecimento, e era basicamente voltado para a educação. Tanto assim qe a primeira reunião foi realmente com a Secretária de Educação e as professoras da Escola Especial que temos em Serra Negra.

Mas inclusão não é só educação. É principalmente educação sim! Mas é também esporte, é também trabalho, é também mobilidade, é também famíia, é também turismo... e obviamente não é só síndrome de Down! Mais do que isso: não era algo que interessava apenas a Serra Negra, e sim a todo o Circuito das Águas Paulista. Então, quando comecei a preparar o escopo deste evento, percebi que ele "explodiu"! Tomou um vulto que eu não podia imaginar, e que até me assustava, pois não me imaginava fazendo algo tão grande assim.

Como meu pai trabalha como assessor na Secretaria de Governo da Prefeitura, levamos o escopo ao conhecimento do prefeito, e ele gostou da idéia. No entanto, não havia a menor condição de a prefeitura bancar o evento, o orçamento de 2006 já estava mais do que fechado, e com a Lei de Responsabilidade Fiscal, não dava para mexer mesmo. Então, para viabilizarmos o evento, teríamos que correr atrás de patrocínio. E nós corremos. Foram 86 empresas, de médio e grande porte consultadas, mas nada conseguimos. Sabe essas empresas que vão à tv falar em "responsabilidade social"? Pois é... na hora de botar a mão no bolso, para ajudar um evento que iria atingir não só Serra Negra, mas todo o Circuito das Águas... nem pensar!

Tivemos que cancelar o evento a quinze dias de sua realização. Com todos os convidados confirmados, tudo pronto, mas não conseguimos o dinheiro necessário. Uma decepção, uma tristeza profunda, e um medo até, pois eu tinha feito todos os contatos, havia me exposto, e ia ter de chegar e falar para cada um que o evento não ia mais acontecer. Mas, graças a Deus, todos eles foram extremamente compreensivos, e se colocaram à disposição para quando conseguíssemos viabilizar o evento.


AA: Então o evento será viabilizado ainda?

AT: Já foi! Logo no começo do ano o prefeito chamou meu pai e mandou-o tocar em frente, que a Prefeitura iria bancar. Se conseguíssemos patrocínio, melhor, poderíamos ampliar. Se não, o que tínhamos tentado fazer em 2006 estava garantido! O 1º FRISCAP - Fórum Regional da Inclusão Social do Circuito das Águas Paulista - se realizou entre os dias 05 e 07 de outubro agora de 2007.

Foi um evento maravilhoso, onde contamos com palestras sobre os mais diversos assuntos, apresentações artísticas e de esportes, estandes de quase todas as cidades da região, e de algumas associações que atendem pessoas com deficiência. Com exceção de algumas ausências em virtude de agenda, todos os convidados para 2006 estavam presentes.

Logo na abertura, o prefeito veio nos cumprimentar e já falou para tocarmos o 2º FRISCAP, que se realizará novamente em Serra Negra, em 2008! Aliás, se algum empresário se interessar em colaborar... estamos aceitando patrocinadores! Queremos fazer algo ainda maior, e para isso não poderemos contar apenas com a verba da Prefeitura!


AA: Qual o público de um evento destes?

AT: Qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais a respeito de como lidar com pessoas com deficiência, de forma a permiti-las uma vida plena e digna. Claro que é esperado que as prefeituras enviem seus representantes da educação, da saúde, do desenvolvimento urbano, dos esportes, e que os profissionais que não estejam ligados às prefeituras também participem, bem como os estudantes, porque afinal de contas eles precisam saber como agir. Mas qualquer pessoa, mesmo que não tenha alguém em seu círculo que possua deficiência, deve estar inteirado do assunto. Ninguém está livre de encontrar um deficiente visual precisando atravessar uma rua, ou de conhecer um coleguinha do seu filho que tenha uma deficiência qualquer. E aí? Como agir? Então, o FRISCAP é aberto a todos, inteiramente gratuito. Temos, sim, inscrições e material para os estudantes e profissionais, que queiram um certificado ao final para comprovação de carga horária.


AA: O preconceito com as pessoas com deficiência ainda é grande?

AT: Infelizmente sim. As pessoas ainda têm muitas restrições, não sabem lidar, a falta de conhecimento é muito grande. Mas pior ainda do que o preconceito existente entre as pessoas "leigas", é aquele que se vê nas escolas que, mesmo sabendo que estão infringindo a lei negam o acesso de crianças com deficiência às classes regulares, e até mesmo o que se vê entre os médicos. Porque ainda se vê muitos médicos despreparados. Você pode imaginar, nos dias de hoje, em que se descobre tanta coisa ainda no útero, que uma mãe ouça de um médico que se filho irá nascer com síndrome de Down, e que não vai andar, falar ou se vestir sozinho? Pior: que o médico recomende o aborto? Isso existe ainda, e em grande escala!


AA: E o que pode ser feito nesse sentido?

AT: Com relação à síndrome de Down, especificamente, existem alguns projetos para a "Hora da Notícia" por todo o País. E, recentemente eu ajudei a elaborar uma cartilha destinada aos pais que descobrem que o bebê, ou que está sendo gerado ou que acabou de nascer, tem síndrome de Down. É uma cartilha bem colorida, cheia de fotos de pessoas com síndrome de Down nas mais diversas fases da vida, com informação acessível, desfazendo mitos... Eu preparei o layout, organizei o arquivo, reuni as autorizações para uso das imagens, mas os textos foram escritos e revistos por pessoas gabaritadas no meio, afinal de contas eu sou leiga no assunto. Procuramos um tom bem amigável, sem muitos termos técnicos. Uma acolhida realmente. Essa apostila está disponível para download, para quem quiser baixar, imprimir, distribuir, à vontade! O endereço é: http://andreatikhomiroff.4shared.com

Há uns meses atrás vieram me avisar que tinha nascido um bebê com Down aqui na cidade, e que a mãe ainda não estava aceitando. Escrevi uma cartinha, me colocando à disposição para ajudá-la, e aguardei que ela me procurasse. Ela ligou, e eu fui à casa dela, já de cartilha em punho. Ajuda muito! A capa já ajuda, porque é uma bebezinha muito linda, então já amolece quem recebe...


AA: A aceitação de um filho com deficiência deve ser muito complicada...

AT: Sem dúvida. Por isso que falamos que é o momento do "luto". É o luto pelo filho idealizado, o filho "perfeito", "normal", que vai ser "doutor". Esse luto pode levar minutos, e pode até durar a vida inteira, mas de modo geral, os pais logo saem deste para a "luta", e vão atrás do que for necessário para que seu filho possa ter uma vida plena. E é nesse aspecto que a educação inclusiva se faz ainda mais importante. Todos têm direito à educação. Não é a criança quem tem que se adaptar à escola, é a escola que deve dar condições à criança de aprender. Hoje nós temos no Brasil, ao menos seis casos conhecidos de jovens com síndrome de Down na faculdade, coisa que ninguém imaginava há alguns anos. Temos a Débora Seabra, em Natal, que se formou no magistério. É a primeira professora brasileira com síndrome de Down. Esses exemplos só provam que é preciso dar oportunidade, acreditar. Porque se os pais não acreditarem, se os professores não acreditarem, como a criança vai aprender, vai se desenvolver? Não é preciso ter alguma deficiência, se pegar uma criança, considerada "normal" e não estimular, não deixar estudar, o que vai ser dela?


AA: E quais os seus planos daqui para a frente?

AT: Bom, além da elaboração do 2º FRISCAP, que eu espero ver ainda melhor do que o 1º, eu espero a partir do próximo ano fazer um curso de Pedagogia. Assim poderei agir mais diretamente, poderei ajudar sem ser "leiga". Hoje eu tenho certeza absoluta de que encontrei meu caminho, e vou trabalhar muito para que a gente chegue a um dia não precisar mais falar de inclusão, porque ela se tornou realidade, parte do nosso dia-a-dia.


AA: Nesse ponto agradecemos à nossa querida colaboradora pela entrevista e abrimos espaço para uma mensagem aos nossos leitores.

AT: Gostaria de deixar uma palavra de incentivo a todos os usuários do Access, para que o estudem cada vez mais e que aproveitem as boas oportunidades de mercado que esse produto maravilhoso oferece. Também gostaria de agradecer a oportunidade oferecida pelo Amaral, com quem já trabalhei um bocado enquanto estava mais participativa na área de desenvolvimento, e que mais do que um colega de trabalho se tornou um amigo a quem quero muito bem. Se alguém quiser me contatar, seja sobre Access ou sobre inclusão, pode entrar em contato pelo e-mail andrea.tikhomiroff@globo.com.

Obrigada mais uma vez.

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